Suicídio na infância e adolescência: é preciso falar disso

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Setembro Amarelo: é preciso falar sobre tentativa de suicídio na infância e adolescência

O Hospital Pequeno Príncipe, referência em atendimentos pediátricos, registrou um aumento de 95% dos casos do primeiro semestre de 2021 para 2022
30/09/2022
suicídio
De janeiro a agosto de 2022, a instituição atendeu 41 crianças e adolescentes que tentaram suicídio ou cometeram autoagressão.

 

Estima-se que, no mundo, uma em cada cem mortes ocorra por suicídio, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os números do Hospital Pequeno Príncipe, maior exclusivamente pediátrico do país, também são alarmantes. De janeiro a agosto de 2022, a instituição atendeu 41 crianças e adolescentes que tentaram suicídio ou cometeram autoagressão. O número é 95% maior do que o total de atendimentos realizados no mesmo período no ano anterior.

A psiquiatra Jaqueline Cenci, do Hospital Pequeno Príncipe, alerta que, para cada suicídio consumado, há cerca de 10 a 20 vezes mais tentativas. “Nossa prática confirma também os dados estatísticos mundiais, com importante parcela dos pacientes que tentaram suicídio apresentando algum transtorno mental conhecido ou diagnosticado durante o atendimento após a tentativa”, destaca.

Os dados da instituição comprovam que adolescentes do sexo feminino estão mais propensos ao problema. Dos 41 casos, 39 foram na faixa etária dos 12 a 17 anos; e 36 entre meninas. “Nos atendimentos do Hospital, parece ser mais comum a tentativa de suicídio por intoxicação exógena (com medicamentos ou outras substâncias), embora a automutilação seja frequente”, completa a psiquiatra.

apoio psicológico
O Hospital oferece acompanhamento psicológico e psicoterapia para pacientes atendidos.

Pandemia como fator agravante

De acordo com a psiquiatra, o aumento das tentativas de suicídio pode ser pensado como um reflexo dos últimos dois anos de dificuldades vividas no contexto da pandemia da COVID-19. O período foi marcado por processos de lutos individuais e coletivos, de perdas financeiras, de isolamento em um ambiente familiar que, em muitos casos, é disfuncional, da ausência de convívio presencial com amigos, escola e comunidade.

Paralelamente a isso, não houve um investimento em saúde mental durante nem após esse período totalmente atípico para a população. “Percebemos que faltou uma proposta de melhoria de qualidade de vida que pudesse dar suporte às crianças e aos adolescentes nesse retorno às atividades habituais. É necessário pensar em políticas públicas que contemplem as necessidades desse momento singular”, constata.

Automutilação

A automutilação está relacionada a uma maior probabilidade de suicídio, principalmente entre adolescentes e jovens. A psicóloga Marianne Bonilha, do Hospital Pequeno Príncipe, adverte que geralmente esse é um sinal de alerta aliado a vários outros, como isolamento social, insônia, tristeza descontextualizada, pensamentos negativos e/ou mórbidos, irritabilidade e baixa autoestima.

Ainda segundo ela, a família é fator fundamental de proteção à saúde mental da criança e do adolescente. “Por isso, é importante que os pais e responsáveis se aproximem, criem um canal de comunicação e estabeleçam diálogo permanente, criando um laço de confiança. Além disso, o encaminhamento a um profissional especializado, como psicólogo e psiquiatra, é essencial”, enfatiza.

Ambulatório Proteger

Reforçando seu papel de proteção à saúde integral da criança e do adolescente, o Hospital Pequeno Príncipe conta com o Ambulatório Proteger. A iniciativa oferece acompanhamento psicológico e psicoterapia para pacientes vítimas de violência, incluindo tentativas e ideação suicida, após alta hospitalar e com frequência semanal de sessões. Por meio de acolhimento, orientação e conversas com o paciente e seus familiares, é feito o diagnóstico das condições intrapsíquicas e familiares, com a delimitação do tratamento. “Os casos de tentativa de suicídio e de ideação suicida, especificamente, apontam para o caminho terapêutico de aprendizado, reconhecimento e expressão dos afetos, bem como resolução de conflitos relacionados com a autoimagem, a identidade sexual e a papéis familiares e sociais”, finaliza a psicóloga.

Confira também a série especial de reportagens em alusão ao Setembro Amarelo:

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