Uso de telas e TDAH: qual a relação?

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Uso excessivo de telas causa TDAH em crianças?

As tecnologias digitais em excesso ou sem supervisão afetam diretamente funções cognitivas, como atenção, memória, raciocínio e capacidade de interação interpessoal
04/08/2026
Uso de telas e TDAH
O excesso de telas pode provocar sintomas semelhantes e intensificar o quadro de quem já convive com o TDAH. (Foto: Complexo Pequeno Príncipe/Camila Hampf)

As tecnologias digitais estão presentes na infância e na adolescência. Entre os jovens de 9 a 17 anos, 96% acessam a internet quase todos os dias, 82% assistem a vídeos, filmes ou séries on-line e 79% trocam mensagens instantâneas, segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil. Com o aumento do tempo diante das telas, também surgem dúvidas entre pais e cuidadores sobre os impactos desse hábito no desenvolvimento infantil. Afinal, como diferenciar uma distração provocada pelo ambiente digital de um quadro de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)?

Crianças e adolescentes com TDAH costumam ser ainda mais sensíveis aos estímulos das telas, que ativam continuamente os mecanismos cerebrais relacionados à motivação e à recompensa. Quando o uso é interrompido, podem surgir maior distração, inquietação, dificuldade para realizar atividades menos estimulantes e vontade de retornar ao ambiente on-line, o que favorece a dependência digital.

O uso excessivo de telas pode causar TDAH?

O TDAH é uma condição crônica que não tem cura, mas pode ser controlada com o tratamento adequado. A origem está principalmente relacionada a fatores genéticos — comumente hereditários (passados dos pais para os filhos) —, mas fatores ambientais e comorbidades com outras condições neurodesenvolvimentais e psiquiátricas podem agravar o quadro. Os sintomas costumam aparecer nos primeiros anos de vida e persistem ao longo do crescimento.

“O uso excessivo de dispositivos digitais pode levar ao surgimento de sintomas como falta de atenção, hiperatividade, inquietação, impulsividade, ansiedade, irritabilidade, insônia e sono fragmentado, características também comuns na trajetória de desenvolvimento dos indivíduos diagnosticados com TDAH”, explica o neurologista pediátrico Antonio Carlos de Farias, do Hospital Pequeno Príncipe.

Ou seja, uma criança que passa muitas horas por dia em frente ao celular, videogame ou computador pode apresentar dificuldade de concentração sem, necessariamente, ter TDAH.

Como o cérebro reage aos estímulos digitais?

Os ambientes digitais oferecem estímulos rápidos e constantes por meio de notificações, vídeos curtos, jogos e redes sociais. Esse padrão ativa repetidamente os circuitos cerebrais ligados à dopamina, neurotransmissor responsável pela motivação e pela sensação de recompensa. Como consequência, a criança ou o adolescente pode entrar rapidamente em um estado de maior alerta, sentir-se motivado e experimentar uma sensação imediata de satisfação ao interagir com esses conteúdos.

Quando retorna às atividades do dia a dia, porém, esse mesmo nível de estímulo não está presente. Estudar, ler ou realizar tarefas escolares pode passar a parecer menos interessante, fazendo com que a criança ou o adolescente fique mais disperso, desmotivado, inquieto e até irritado. Com o tempo, o cérebro passa a buscar recompensas cada vez mais imediatas, o que pode prejudicar a atenção sustentada, a memória, a capacidade de lidar com frustrações e o aprendizado.

Esses comportamentos podem ser confundidos com um transtorno de atenção, quando, na realidade, estão relacionados ao uso excessivo das tecnologias e tendem a melhorar com mudanças na rotina.

Como diferenciar TDAH da distração causada pelo excesso de telas?

No TDAH, os sintomas aparecem desde a primeira infância e costumam estar presentes em diferentes ambientes, como casa, escola e momentos de lazer. Mesmo quando o tempo de tela é reduzido, eles podem melhorar, mas não desaparecem completamente. Por isso, para diagnosticar o TDAH, é necessário avaliar o histórico da criança, seu desenvolvimento e o comportamento em diferentes contextos.

Já quando a dificuldade de atenção está relacionada principalmente ao uso excessivo de dispositivos eletrônicos, a reorganização da rotina costuma trazer melhora significativa em dias ou semanas.

Existe tempo de tela considerado seguro para quem tem TDAH?

Não existe um número de horas que seja considerado ideal para todas as pessoas. Além da quantidade de tempo, é importante avaliar a idade da criança ou adolescente, o tipo de conteúdo acessado e os impactos desse hábito na rotina.

Segundo o neurologista pediátrico, o uso das telas não pode comprometer o sono, os estudos, as atividades físicas, a convivência familiar e os relacionamentos. Também é importante evitar dispositivos eletrônicos entre 60 e 90 minutos antes de dormir, reduzir notificações e limitar a realização de várias tarefas ao mesmo tempo.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda:

  • até 2 anos: nenhum tempo de tela;
  • de 2 a 5 anos: até uma hora por dia, sempre com mediação de um adulto;
  • de 6 a 10 anos: entre uma e duas horas diárias;
  • de 11 a 18 anos: entre duas e três horas por dia.

“Uma desintoxicação digital estruturada, com duração de duas a quatro semanas, pode ser útil tanto como teste diagnóstico quanto como tratamento. Essa prática ajuda a identificar até que ponto os sintomas são provocados ou mantidos pelo uso excessivo de telas e pode trazer melhorias significativas no sono, no humor e na atenção“, orienta o especialista.

Como organizar a rotina sem depender dos estímulos do celular?

O ideal é construir uma rotina equilibrada, oferecendo alternativas que despertem o interesse da criança ou do adolescente. Algumas estratégias incluem:

  • estabelecer horários sem celular, como durante as refeições e antes de dormir;
  • incentivar brincadeiras, leitura, esportes e hobbies;
  • promover momentos de convivência com familiares e amigos;
  • manter os aparelhos fora do campo de visão durante os estudos;
  • estimular que a criança realize uma atividade por vez, evitando a multitarefas.

Quando procurar ajuda médica?

Se a criança ou o adolescente apresenta dificuldade persistente de atenção, hiperatividade ou impulsividade desde os primeiros anos de vida, e esses comportamentos causam prejuízos na escola, em casa ou nas relações sociais, é importante buscar avaliação de um especialista.

O diagnóstico precoce do TDAH permite iniciar o tratamento adequado, reduzir impactos no desenvolvimento e favorecer uma melhor qualidade de vida.

O Pequeno Príncipe é participante do Pacto Global desde 2019. E a iniciativa presente neste conteúdo contribui para o alcance do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS): Saúde e Bem-Estar (ODS 3).

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