Complexo, Hospital

“Extraordinário” traz ensinamentos que devem ir além da emoção na sala de cinema

A produção reforça o papel da escola, dos pais e responsáveis na inserção social das crianças com doenças crônicas ou daquelas que apresentam particularidades, como deformidades e a necessidade da utilização de próteses e órteses

Auggie e a mãe em cena de “Extraordinário”: carinho e estímulo da família foram fundamentais para a inserção social da criança.

Com quase 4 milhões de espectadores no Brasil, o filme “Extraordinário”, baseado no best-seller infantojuvenil da escritora norte-americana R. J. Palacio, é uma boa pedida nos cinemas e reforça temas importantes para o desenvolvimento das crianças e adolescentes. O protagonista da história, August Pullman, o Auggie, tem apenas 10 anos e nasceu com uma doença genética rara sem cura, chamada de Síndrome de Treacher Collins (disostose mandibulofacial), enfermidade que atinge principalmente os ossos da face, a mandíbula, o queixo e as orelhas.

A narrativa começa exatamente no momento em que o garoto se prepara para encarar um grande desafio: enfrentar outros meninos e meninas na escola. “Esse preparo tem que começar já em casa desde o instante zero.  É muito importante nesses casos o olhar coruja da mãe, pois a criança tem que se sentir amada do jeito que ela é”, explica a coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe, Ângela Bley.

Para que uma criança com qualquer tipo de deformidade ou necessidade especial, como o uso de próteses e órteses, possa encarar a vida social, o carinho e o estímulo dos pais ou responsáveis faz toda a diferença. “Como se sente amada, ela está preparada para lidar com a vida. Isso não significa que vai ser fácil para ela, mas vai ter ferramentas para isso”, completa a psicóloga.

Gentileza

Como a autora de “Extraordinário” trabalha em seu livro, a gentileza é o primeiro passo para tornar a rotina de uma criança como Auggie mais feliz e repleta de possibilidades. “Ela precisa  perceber que pode ser diferente, mas que ainda assim tem mil qualidades, além de outros mil fatores que  fazem com que ela seja especial de uma forma ou de outra”, reitera Ângela Bley.

A especialista lembra que nem para a própria família é fácil nos primeiros momentos. “É a necessidade de abandonar a ideia do filho ideal e aceitar, aprender a ter orgulho, entender e valorizar o que essa criança tem de bom”, comenta.

Em casos como o retratado no filme e em outras situações, a equipe do Serviço de Psicologia do Hospital Pequeno Príncipe entra em contato com a escola e faz um trabalho diferenciado, que inclui visitas ao estabelecimento de ensino com direito a conversas com orientadores e os próprios alunos. “É muito importante que a escola esteja preparada para isso. Atendemos aqui no Hospital até amigos da criança”, reitera a coordenadora da área.

A escola tem papel fundamental na discussão e é importante trabalhar com as crianças desde muito cedo a questão da empatia e compaixão.

Ângela Bley salienta que a gentileza realmente é o ponto-chave da discussão. “É uma questão de empatia e compaixão, que deve ser trabalhada com as crianças desde pequenas. Dessa forma que fazemos do mundo um lugar realmente gostoso para se viver. Tratar o outro como você gostaria que te tratassem”, analisa.

Por conta disso, a psicóloga lembra que conversar sobre o problema é sempre um caminho bem-vindo e extremamente necessário. Dessa prática, por exemplo, vem o olhar para o outro com mais gentileza. “É preciso enxergar além da doença, do problema físico. Cada pessoa, cada um do seu jeito, é especial. Não é fácil, mas é preciso treinar diariamente”, comenta.

Além de causar emoção nas salas de cinema, “Extraordinário” pode ser capaz de influenciar corações e mentes também na vida real. É como Auggie, o inspirador personagem de R. J. Palacio, diz:  “A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me enxerga dessa forma”.

Sobre “Extraordinário”

Publicado no Brasil pela editora Intrínseca, “Extraordinário” já ultrapassou a marca dos 500 mil exemplares comercializados no país. No mundo, a obra superou a marca de 5 milhões de unidades vendidas. Um fenômeno que se explica pela força da narrativa, que vai muito além de propor uma discussão sobre o bullying ou de reforçar a necessidade de se aceitar as diferenças.

R. J. Palacio, pseudônimo de Raquel Jaramillo, envolve o leitor de uma forma surpreendente. O ponto de partida da trama vem de uma situação real vivida pela autora. Ela ficou atônita com a reação dos filhos ao encontrar uma menina com uma deformidade no rosto. Dessa observação cotidiana, nasceu o livro que é capaz de conquistar leitores de todas as idades.

Contada em primeira pessoa pelo próprio Auggie, com direito a capítulos que mostram também a visão dos fatos a partir do olhar de outros personagens, a obra tem um texto ágil, repleto de frases e pensamentos inspiradores, que revelam um protagonista que não se vitimiza diante de sua aparência e da reação das pessoas ao seu redor.

Enfrentar a convivência na escola após uma longa batalha contra a doença é um desafio a mais na vida de Auggie, mas o menino – apesar da pouca idade – mostra uma força surpreendente para lidar com a adversidade. Como qualquer criança, ele tem seus momentos de recuo e sofrimento, mas com sua personalidade apaixonante cativa a todos.

Auggie não se entrega à enfermidade e R. J. Palacio nem tem a intenção de que o leitor tenha pena do personagem. O garoto é maior que qualquer problema e – mesmo diante de tantos empecilhos – escolhe a gentileza, o amor, a boa vontade e a esperança para guiar seus passos.

O filme baseado no livro, em exibição nos cinemas, é protagonizado por Jacob Tremblay (ator de 11 anos que ganhou fama mundial ao estrelar o longa-metragem “O Quarto de Jack”), Julia Roberts, Owen Wilson e conta ainda com a participação especial da atriz brasileira Sônia Braga. Recomendado para espectadores de todas as idades.

  • Confira o trailer de “Extraordinário”:

  • Clipe da canção “brand new eyes”, com Bea Miller, da trilha sonora de “Extraordinário”

 

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