Ana Paula Machado Costa: o cuidado também acolhe quem cuida

Sua história, nossa história

Ana Paula Machado Costa: o cuidado também acolhe quem cuida

“A essência da medicina e da enfermagem do trabalho é olhar não só para a parte ocupacional, mas para o indivíduo como um todo. O colaborador precisa estar bem para prestar um bom cuidado ao paciente, assim como precisa estar bem quando sai do trabalho.”
29/05/2026
Ana Paula Machado Costa
Ana Paula Machado Costa é enfermeira do trabalho no Hospital Pequeno Príncipe, onde atua há mais de 10 anos. (Foto: Complexo Pequeno Príncipe/Luiza Yasumoto)

Ana Paula Machado Costa construiu sua trajetória com perseverança, delicadeza e um olhar profundamente humano para o cuidado. Desde muito jovem, atravessou caminhos difíceis para perseguir o sonho de tornar-se enfermeira e encontrou no Hospital Pequeno Príncipe a oportunidade de transformar sua história. Técnica em enfermagem do trabalho desde 2007, concluiu a graduação em Enfermagem com apoio do Programa Valorizando Talentos e hoje atua como enfermeira do trabalho na instituição. Há mais de uma década no Hospital, é reconhecida pela forma acolhedora e afetuosa com que cuida das pessoas, tornando-se alguém querida por colegas e colaboradores — vínculos que fizeram do Pequeno Príncipe seu segundo lar.

Aprender a cuidar de quem cuida

“Sempre tive o sonho de ser enfermeira, desde criança. Terminei o ensino médio e logo entrei no curso técnico. Quando eu me formei, lá em 2007, trabalhava numa clínica onde fazia o atendimento de exames. Lá, eu conheci o meu esposo, e foi por incentivo dele, que estava na graduação de Enfermagem, que me especializei no Técnico de Enfermagem do Trabalho. Ele trabalhava no Cerest [Centro de Referência em Saúde do Trabalhador], e eu comecei a ver o trabalho com outros olhos, no sentido de reconhecer que a pessoa, antes de ser um trabalhador, é um ser humano que precisa de cuidados.”

O começo de uma história no Pequeno Príncipe

“Eu atuava como técnica de enfermagem em outro hospital, em 2014, quando participei da Brigada de Emergência e conheci a equipe de Segurança do Trabalho do Pequeno Príncipe — o Eduardo, que é meu coordenador hoje, e o Fredson. Nesse dia, estávamos conversando no café e comentei que era técnica em enfermagem do trabalho, mas nunca tinha atuado na área. Disse que, se surgisse uma vaga, gostaria de participar do processo seletivo. No ano seguinte, o SESMT [Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho] me informou que o HPP estava com uma vaga aberta. Na entrevista, havia cerca de dez pessoas, todas muito experientes. Saí desanimada, achei que não seria chamada, mas dois dias depois meu telefone tocou. Assim começou minha trajetória no Pequeno Príncipe, há quase 12 anos.”

O lugar onde escolheu ficar

“Em 2017, passei em um processo seletivo para sargento do Exército, e minha vaga saiu para Joinville. ‘Você tem certeza de que é isso?’, o Eduardo, como coordenador, me perguntou. Fui mãe aos 21 anos, hoje meu filho tem 15, sou casada há 17, e aqui criamos laços, vínculos, sentimos necessidade de estar perto das pessoas e saber como elas estão. Então, desisti e voltei para casa — para minha família e para o Pequeno Príncipe. Quando retornei, fui acolhida. O Eduardo conversou comigo e me apresentou o Programa Valorizando Talentos. Consegui uma bolsa de estudos: 70% da faculdade de Enfermagem foi paga pelo Hospital, e 30%, pelo meu esposo. Me formei em 2022 e, em 2023, assumi como enfermeira do trabalho — o Hospital me deu essa oportunidade.”

A oportunidade que transformou sua trajetória

“Minha mãe era diarista e meu pai era alcoólatra, não tinha uma renda fixa. Então, com 16 anos, comecei trabalhar para ajudar minha mãe, que batalhou para pagar o meu curso técnico.  Desde cedo, a gente teve que correr atrás. Sem minha bolsa de estudos, a graduação não estaria em meu alcance, ainda mais tendo filho nova, cuidado da casa. Foi por meio do Hospital Pequeno Príncipe que consegui me formar, fazer a minha pós-graduação e um curso de especialização em Urgência e Emergência.”

“Quero ser enfermeira do trabalho”

“Na graduação, todo mundo falava: ‘Nossa, enfermeiro do trabalho é sempre velhinho, são profissionais que já estão cansados da área.’ Muitas pessoas não conhecem a essência da enfermagem do trabalho e a importância dela dentro de uma empresa, em um hospital grande como o nosso. Eu sempre falava: ‘Quero ser enfermeira do trabalho.’ Hoje encontro muitas pessoas que se formaram comigo aqui no Hospital. Olhar para elas e saber que um dia estiveram sentadas ao meu lado estudando comigo, e que hoje também estão aqui sendo enfermeiras, é muito legal.”

“A essência da medicina e da enfermagem do trabalho é olhar não só para a parte ocupacional, mas para o indivíduo como um todo. O colaborador precisa estar bem para prestar um bom cuidado ao paciente, assim como precisa estar bem quando sai do trabalho.”

A medicina do trabalho

“A essência da medicina e da enfermagem do trabalho é olhar não só para a parte ocupacional, mas para o indivíduo como um todo. O colaborador precisa estar bem para prestar um bom cuidado ao paciente, assim como precisa estar bem quando sai do trabalho; ele tem uma vida, uma família. Não é só realizar exames periódicos ou os procedimentos exigidos pela legislação. A gente faz consulta, acompanhamento. Esse é um diferencial do Pequeno Príncipe. Participamos de muitos treinamentos e encontros com profissionais de outras áreas e percebemos que o que fazemos aqui vai muito além do que costuma ser feito em outros lugares.”

Cuidado com a saúde mental

“Hoje, sabemos que existe uma legislação, uma normativa que está para entrar em vigor agora, sobre os riscos psicossociais, mas o Hospital Pequeno Príncipe já faz isso há muito tempo, que é cuidar da parte psicológica, cuidar do bem-estar dos profissionais. Existe uma escuta aqui dentro para como você está e para como o seu ambiente está, isso é muito importante.”

A importância de estar perto

“Me marcou muito uma colaboradora que fazia quimioterapia e optou por não parar de trabalhar. Quando descobriu o câncer de mama, ela levava tudo com muita leveza e passava tranquilidade para nós, mas em nenhum momento quis se afastar pelo INSS. Sempre que vinha trazer uma declaração ou atestado, chamávamos ela para conversar. Ela foi uma pessoa que acompanhamos desde o início e que me marcou muito. Nessa situação, tivemos uma perda, mas temos casos de colaboradoras que estão tratando desde o início, e não em uma fase avançada da doença. No Programa Mulher Saudável, do Programa Cores, a professora Adriana realiza os exames com os acadêmicos e, se houver qualquer alteração, encaminha para nós. Fazemos a consulta, o acolhimento e orientamos a colaboradora a procurar a unidade de saúde. E sempre fazemos o acompanhamento. Elas passam aqui, trazem os pareceres e recebem orientação da médica do trabalho também.”

Histórias que se encontram na enfermagem

“Desde pequena, ouvia que meu avô era bombeiro e que havia falecido por inalação de fumaça. Foi só na minha formatura de Enfermagem, em 2022, que minha avó por parte de pai me contou: ‘Sabia que o vô João Carlos era enfermeiro também?’ — ela chorava muito, estava emocionada. Meu avô passou no Corpo de Bombeiros depois dos 30 anos, faleceu em um dos primeiros atendimentos. Ele era enfermeiro e minha avó era copeira do hospital.  Eles se conheceram, casaram e tiveram quatro filhos. Damos risada, porque, na minha família, eu sou enfermeira, meu marido é enfermeiro, e também nos conhecemos trabalhando na área.”

Família como prioridade

“Sou apaixonada pelo meu filho. Hoje, o João joga vôlei, então a minha correria e a do meu esposo giram muito em torno dele — levar para os treinos, acompanhar campeonatos, estar presente em cada fase. Meu hobby é justamente estar com a minha família. Gosto de ficar em casa com meu esposo e meu filho, cuidar da minha mãe, conversar, dividir o tempo com eles. Independente de ser em casa ou em um passeio, o que realmente importa para mim é estar com eles. Sempre com eles.”

Onde construiu seu lar

“Doze anos de história é tempo. Tenho muita gratidão por estar aqui desde o momento em que entrei, quando me abriram as portas. É a minha segunda casa, o meu segundo lar. Não faria sentido ir para longe, não… aqui construí toda uma história. Precisamos trabalhar em um local em que nos sentimos bem e sabemos que as coisas são feitas de forma correta. Temos um hospital que acolhe a saúde e a segurança de todos.”

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