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Misoginia na adolescência: o papel da família e da educação na prevenção

A misoginia — caracterizada pelo ódio e desprezo pelas mulheres — tem se manifestado de forma cada vez mais precoce entre os jovens. As denúncias desse tipo de discurso na internet cresceram 224% em 2025 em relação ao ano anterior, segundo dados da SaferNet Brasil. Isso chama atenção para o papel das famílias na formação dos valores desde a infância, além da influência do ambiente digital.
A criação dentro de casa, somada ao acesso cada vez mais precoce às redes sociais e a conteúdos violentos ou sexualizados na internet, tem influenciado a maneira como muitos adolescentes constroem suas percepções sobre masculinidade, relacionamentos e papel das mulheres na sociedade.
O cenário também aparece em um estudo global realizado pela Ipsos em parceria com o King’s College de Londres. Ele mostrou que homens da geração Z — nascidos entre 1996 e 2012 — têm maior propensão do que os baby boomers — nascidos entre 1945 e 1965 — a acreditar que esposas devem “obedecer” aos maridos.
Recentemente, o TikTok — uma das redes com mais denúncias de misoginia, conforme a SaferNet Brasil — virou alvo de investigações por causa da trend criminosa conhecida como “Caso ela diga não”. Na prática, homens simulavam agressões contra mulheres após uma suposta rejeição amorosa. O caso reacendeu o alerta sobre a banalização da violência.
A seguir, o Hospital Pequeno Príncipe aborda as principais reflexões acerca da misoginia na adolescência com o olhar das psicólogas Luana Santi e Simone Passos Valesi.
Reflexões sobre misoginia na adolescência
Os modelos que vêm de casa
Antes de olhar para os riscos do ambiente digital, é preciso observar o contexto familiar. Isso porque o repertório emocional e relacional do adolescente começa a ser construído dentro de casa.
Muitos jovens recorrem à internet em momentos de frustração — como desilusões amorosas ou conflitos sociais — e acabam encontrando respostas simplistas e rígidas, muitas vezes baseadas em códigos morais distorcidos sobre o que significa “ser homem”.
Assim, sem esse suporte emocional, adolescentes se tornam mais vulneráveis a conteúdos que reforçam estereótipos de gênero e incentivam a objetificação das mulheres.
Você, pai, mãe ou cuidador, já pensou se…
- …consegue lidar com as próprias frustrações e emoções dentro de casa?
- …existe diálogo sobre sentimentos, dificuldades e momentos delicados?
- …está atento às mudanças de comportamento do seu filho?
- …o seu filho está mais introspectivo ou isolado do que o habitual?
- …conhece os grupos de amigos do seu filho?
Algoritmos, frustração e discursos prontos
Muitos responsáveis ainda acreditam que os filhos estão seguros apenas por permanecerem em casa. No entanto, o ambiente on-line pode expor jovens a conteúdos que normalizam a misoginia e discursos de ódio.
A série Adolescência ajudou a ampliar esse debate ao mostrar os impactos das redes sociais no comportamento dos adolescentes e a dificuldade das famílias em identificar sinais de sofrimento e influência nociva.
Outro fator relevante é o papel dos algoritmos na formação de pensamento. Afinal, conteúdos misóginos muitas vezes se apresentam como soluções rápidas para dores reais. O adolescente vive uma frustração e encontra alguém dizendo: o problema não é você, são as mulheres. E que, para “se salvar”, ele precisa ser um “homem de alto valor”.
Esse tipo de narrativa reforça padrões rígidos de masculinidade, baseados em controle emocional, desempenho e poder — o que pode gerar impactos negativos tanto para meninos quanto para meninas.
A repressão emocional masculina começa cedo, quando sentimentos são associados a fragilidade. Assim, quando emoções como frustração, rejeição ou insegurança não encontram espaço de expressão saudável, podem transformar-se em raiva e ressentimento — frequentemente direcionados ao feminino.
Educação de gênero começa na infância
Na adolescência, a construção de confiança se torna essencial. Modelos parentais baseados no medo tendem a gerar afastamento e ocultação de comportamentos. Nesse sentido, o diálogo, mesmo sendo mais difícil, é o caminho.
Abrir espaço para conversas sobre emoções, frustrações e até temas sociais — como violência contra a mulher — pode funcionar como fator de proteção. A prevenção da misoginia começa na infância, nas pequenas interações do dia a dia.
Quando a sociedade diz que algo é “de menina” e isso é visto como inferior, o menino aprende que deve rejeitar o feminino. Isso inclui desde permitir diferentes formas de brincar até questionar estereótipos e promover igualdade nas relações familiares.
O exemplo cotidiano também é determinante. Não é só o que os pais dizem, é o que o adolescente vê: como o pai trata a mãe, e vice-versa, como as pessoas se relacionam dentro de casa.

Sinais de atenção da misoginia na adolescência
Alguns comportamentos merecem um olhar especializado, como:
- falas recorrentes de ódio ou desprezo por meninas/mulheres;
- isolamento excessivo;
- consumo secreto de conteúdos on-line;
- dificuldade em lidar com rejeição e frustração;
- falas sobre “homem de verdade” ou “mulher certa”.
Além disso, em situações em que a família perde completamente a possibilidade de diálogo ou há mudanças mais intensas de comportamento, o acompanhamento psicológico pode ser um recurso importante para ajudar a mediar essa relação e compreender o que está acontecendo com o adolescente.