Cristiane Rangel: a sensibilidade que enxerga além do diagnóstico

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Cristiane Rangel: a sensibilidade que enxerga além do diagnóstico

“O Pequeno Príncipe representa a abertura da minha visão para um mundo que eu desconhecia. Foi uma verdadeira virada de chave que me ajudou a evoluir como pessoa.”
19/08/2026
Cristiane Rangel
A técnica em radiologia Cristiane Rangel ingressou em 2013 no Centro de Imagem. (Foto: Complexo Pequeno Príncipe/Thaís Lemes)

A trajetória da técnica em radiologia Cristiane Rangel no Hospital Pequeno Príncipe é feita de olhares atentos, gestos de carinho e uma profunda dedicação ao cuidar. Ela ingressou em 2013 no Centro de Imagem e encontrou na rotina hospitalar muito mais do que a sua profissão: descobriu um espaço de aprendizado humano e de conexão verdadeira. Também foi na instituição que recebeu acolhimento em momentos desafiadores. Por meio do Programa Cores, iniciativa pioneira de cuidado com quem cuida, ela realiza o atendimento psicológico, fundamental para a saúde e bem-estar.

Uma “cariúcha” de coração curitibano

“Minha família toda é do Rio de Janeiro, mas a minha mãe fugiu para o Rio Grande do Sul com o meu pai — uma história superinusitada. Meu pai tinha uma irmã que morava lá, e eles ficaram na casa dela. Por isso, nasci em Porto Alegre, na Santa Casa. Mas com 9 meses nós voltamos para o Rio. Minha mãe até brinca que eu sou ‘cariúcha’: nasci em Porto Alegre, mas vivi muitos anos no Rio de Janeiro. E há 25 anos a gente veio morar em Curitiba.”

Escolha pela área da saúde

“Desde criança, pensava na área da saúde. Sabe como é: criança costuma dizer que quer ser médica, mas, conforme a gente cresce, vê que não é bem assim. Além de ser um curso superconcorrido e difícil, tem toda a questão de você realmente se identificar com aquilo. Tanto que no ensino médio fiz o curso integrado de Técnico em Higiene Dental, pela Universidade Federal Fluminense, lá no Rio. Gostava muito, mas, por alguns problemas no andamento do curso, acabei não concluindo. Depois que vim para cá, até pensei em Geografia, em História… mas meu coração sempre voltava para a saúde.”

Inspirações para o cuidado

“A minha mãe, o meu marido e a minha sogra são as minhas inspirações. A minha mãe era uma pessoa que amava cuidar dos outros. Ela cuidou do afilhado desde criança e tinha essa vocação de ajudar, estivesse a pessoa doente ou não. Cuidava com o que ela tinha, que era o servir. Meu marido também é assim: ele é professor de música, tem esse dom, e as crianças adoram ele. E a minha sogra igual: se alguém faz cirurgia ou nasce um neto, ela tá lá cuidando. Então, acho que minhas referências vêm da minha família mesmo.”

O caminho até o Centro de Imagem

“Quando meus filhos estavam maiores, resolvi voltar a estudar e fiz o curso de Técnico em Radiologia. Queria cuidar das pessoas, era com isso que me identificava. Ainda não tinha terminado o curso e entrei no Hospital Pequeno Príncipe como auxiliar dos técnicos. Depois, concluí o meu curso, e abriu uma vaga para técnica. Fiz o processo seletivo, passei e hoje já estou há dez anos atuando nesta função.”

A leveza do universo infantil

“Gosto dessa questão de ter contato com as crianças, porque me divirto. Tem histórias bem engraçadas, curiosidades… Criança é muito sincera e espontânea! Se tá com medo, fala que tá com medo, e faz umas perguntas que eu acho ótimas. Gosto de trabalhar com elas por isso: por serem sinceras e não disfarçarem nada — falam, e pronto. Chego em casa contando as histórias engraçadas e tudo, e como sou mãe essa é a parte que eu realmente mais gosto.”

Histórias que marcam

“Alguns pacientes me marcaram muito, como as crianças com osteogênese imperfeita — a doença dos ‘ossos de vidro’. Uma delas é uma paciente que acompanho há muitos anos. Na época em que ela chegou, tinha uns 4 ou 5 anos. Ela me marcou demais porque, primeiro, era uma criança extremamente feliz, sorridente e comunicativa… Não tinha quem ela não conquistasse no papo! Ela era superconsciente da condição dela: sabia o nome dos remédios e o porquê das internações para o tratamento de fortalecimento dos ossos. Parecia uma adulta falando! Um dia, perguntei o que ela queria ser quando crescesse, e ela me disse que queria ser endocrinologista para cuidar de pessoas com o mesmo problema que ela. Ela foi uma grande lição para mim: mesmo com uma condição tão séria, encarava a vida com alegria.”

Expansão de horizontes

“Quando ficamos só em casa, acabamos fechados no nosso próprio mundinho, focados apenas nos nossos problemas e limitados ao convívio familiar. Mas, ao vir trabalhar no Pequeno Príncipe, meu horizonte se expandiu totalmente. Comecei a ter contato com doenças e realidades que nem sabia que existiam, convivendo com crianças enfrentando desafios profundos e com colegas de trabalho de histórias riquíssimas. Percebi que o Hospital não cuida apenas do paciente, mas acolhe a família inteira.”

“O Pequeno Príncipe representa a abertura da minha visão para um mundo que eu desconhecia. Foi uma verdadeira virada de chave que me ajudou a evoluir como pessoa.”

Aprendizados

“O Pequeno Príncipe representa a abertura da minha visão para um mundo que eu desconhecia. Foi uma verdadeira virada de chave que me ajudou a evoluir como pessoa. Essa vivência me tornou mais sensível e amadurecida. Ver a luta dessas crianças — e até a dor de perder algumas tão precocemente — me fez olhar para fora do meu próprio umbigo e valorizar a vida de outra forma. Além disso, estar ali nos mantém atualizados, vendo de perto tanto as novas doenças quanto os avanços da medicina.”

Superando desafios

“Eu faço terapia há mais de dois anos pelo Programa Cores, e tem sido uma experiência excelente. Procurei o atendimento em um período em que acumulei bastante estresse e ansiedade por conta de momentos difíceis na família e perdas dolorosas. Durante o exame periódico no hospital, a médica percebeu que eu precisava desse suporte e me encaminhou para a psicologia. Aceitei a oportunidade e passei a ter esse acompanhamento constante. Muita gente nem sabe que o Hospital disponibiliza esse suporte ou como ele funciona na prática. Então, sempre que vejo um colega que não está se sentindo bem, recomendo a terapia. Se ajudou na minha vida, faço questão de indicar.”

O aconchego do lar e o valor das coisas simples

“Sou casada há quase 32 anos. O meu marido é professor de música, e nós temos dois filhos: a Sara, de 29 anos, que já é casada e mora em Itajaí, e o Pedro, de 23, que mora com a gente, estuda e trabalha. O que mais gosto é estar com a minha família, sentar à mesa juntos para comer e conversar por horas. Quando os meus filhos eram pequenos, sempre fiz questão de ter um tempo de qualidade com cada um. Com a Sara, passava horas fazendo artesanato, bijuteria e biscoitos. Já com o Pedro, o nosso momento era sentar no sofá para assistir aos filmes de super-herói que ele adorava. Hoje, com eles já adultos, minha grande terapia ocupacional é o crochê. Além disso, eu e meu marido adoramos assistir a esportes juntos na TV, como Fórmula 1, tênis, futebol, e sou apaixonada por basquete, não perco os jogos da NBA.”

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