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Jocemara Gurmini: a pediatra que transforma desafios em histórias de vida

Foi no Hospital Pequeno Príncipe que a pediatra Jocemara Gurmini realizou o desejo de fazer a residência em pediatria e para onde retornou após a especialização em gastroenterologia e nutrologia pediátrica, para estruturar o Serviço de Suporte Nutricional, referência na área. Entre a rotina intensa hospitalar, a formação de novos profissionais e os treinos de triatlo que começam às quatro da manhã, colecionou milhares de histórias. Ao longo da carreira, descobriu que cuidar de crianças vai muito além da medicina: é criar vínculos, acolher famílias e acreditar que a ciência, aliada ao trabalho em equipe, pode mudar destinos. Uma missão que, desde a infância, já fazia parte dos seus sonhos.
Sonho que nasceu na infância
“Sou de Curitiba, nasci aqui. Não sei dizer por que, mas, desde o começo, desde os 3 anos, dizia que queria ser médica e pediatra. Não tenho nenhum médico na família. O pessoal é do direito, administração… Causava um pouco de estranheza, né? A criança tão pequena falar que queria ser médica pediatra, mas acho que já estava em mim. Lógico que, durante o curso, tive contato com outras especialidades e me encantei por uma coisa ou por outra. Mas sempre acabava na pediatria. Fiz medicina na PUCPR e meu sonho sempre foi fazer um estágio no Hospital Pequeno Príncipe. E, lógico, fazer residência aqui. Então, terminei a faculdade em 1994 e, de 1995 a 1996, fiz a residência na instituição. Quando a gente gosta do que faz, é uma experiência gratificante.”
Caminho de volta para casa
“Mas a dificuldade maior foi quando tive que sair de Curitiba e ir para São Paulo, pois nunca tinha tido essa experiência de morar sozinha. E fui para um outro lugar, sem parentes, então foi um grande desafio. Mas, de certa forma, contribuiu muito para o meu crescimento. Fiquei três anos lá, fazendo a especialização na Escola Paulista, fiz dois anos de gastroenterologia pediátrica e um de nutrologia pediátrica. Foi muito legal, porque quando estava na pediatria a gente vai se encantando por especialidades. E me encantei pela gastroenterologia. E o doutor Mário Vieira, responsável pelo Serviço de Gastroenterologia, foi o meu padrinho profissional. Ele disse que me diferenciaria dentro da gastroenterologia seguindo essa área. Então, fui para lá com o objetivo de voltar para montar o Serviço de Suporte Nutricional. Desafio dado, desafio feito.”
Serviço construído para transformar vidas
“Quando voltei de São Paulo, voltei para gastroenterologia e iniciei o Serviço de Suporte Nutricional em 1999. E coincidiu com a saída das portarias do Ministério da Saúde tanto para a nutrição enteral quanto para a parenteral. E era muito importante que o Hospital tivesse tanto a especialidade quanto todo esse trabalho dentro da instituição. Na época, inclusive, foi construída a sala de produção de enteral, melhorias do lactário, porque quando você fala em suporte nutricional a impressão que dá é que você está trabalhando num caldeirão, fazendo comida, mas não é isso. Tem todo um trabalho clínico e é multiprofissional.”
Uma equipe para transformar o cuidado
“Hoje, o Serviço de Suporte Nutricional é uma especialidade de alta complexidade. E ela abrange não só o médico, mas também nutricionista, enfermeiro, farmacêutico. E acho que é importante comentar que o Pequeno Príncipe foi um dos primeiros hospitais a ter o suporte nutricional, que é um serviço de alta complexidade reconhecido pelo Ministério da Saúde. E de lá para cá, só cresceu. E aí tem um outro bracinho também, uma outra sementinha que foi criada no meio da história, que é a reabilitação intestinal. Pensando em um hospital que tem tantas doenças de alta complexidade, o suporte nutricional vai estar envolvido em todas. No começo foi realmente um grande desafio, até porque era eu, de repente apareceu comigo uma enfermeira e uma nutricionista para um hospital de 400 leitos. E ocupar o espaço como suporte nutricional, porque junto com as portarias vieram algumas normativas. Então, por exemplo, não posso passar sopa batida e café com leite na sonda. Eu tenho dietas especiais, cálculos especiais.”
Conhecimento multiplicado
“Com o passar do tempo e com o serviço crescendo, a gente tem hoje uma residência de suporte nutricional e nutrologia também. Quando a gente fala de suporte nutricional, vou abranger várias coisas, não só o suporte nutricional em si, que seria as dietas por sonda, mas também a nutrologia, onde vou trabalhar com obesidade, desnutrição e outras questões alimentares. Então, tenho duas especialidades em uma coisa só. E já formou algumas pessoas, lembrando que são poucos os locais que têm esse tipo de residência. Esse foi um outro desafio e é uma outra vitória nossa, que é formar bons profissionais e colocá-los no mercado de uma maneira bacana também. E acho que também esse é um compromisso do Hospital, né? Enquanto hospital e escola não é só tratar bem, é toda essa questão aí, mas tem também da formação.”
Cuidar da criança é cuidar da família
“Não sei dizer ao certo o que me fez escolher a pediatria, mas talvez pela criança mesmo. Se a gente for pensar na família, as famílias são complexas. E a dificuldade não é trabalhar com a criança, é trabalhar com a família. Esse é outro grande aprendizado disso tudo: como você vai chegar na família, como vai se expressar, como vai explicar a doença. Todo mundo tem que estar no mesmo time, não posso ter times diferentes. Se a família não estiver no seu time, a chance de dar errado é muito grande. Mas sou feliz trabalhando com criança. Não me vejo trabalhando com pacientes adultos.”
Transformar a dor em aprendizado
“Desde a época em que eu era residente, me encantei por uma paciente que era da cirurgia cardíaca. A gente acaba tendo um vínculo grande, e a menina faleceu. Aquilo foi um peso, uma dor tão forte, né, que me fez até questionar se, de repente, eu continuaria ou não. A verdade é que a gente não se acostuma com isso. A gente aprende a transformar esse sentimento.”
Caminho de quem escolhe a medicina
“Mas para quem está começando nessa vida agora, eu falo: ‘Faça tudo certo, que a recompensa vem.’ O entendimento de tudo isso vem também. Acho que é importante, se você quer ser um bom médico, se você quer trabalhar com qualquer especialidade, estudar, ser bom. Faça uma boa faculdade, faça uma boa residência, que a recompensa vem. E o entendimento também. Nem sempre a gente ganha. Lógico que a gente quer sempre ganhar. A gente é programado para ganhar, mas pode ser que nem sempre a gente ganhe. Agora, a partir do momento em que você está num lugar bom, que você tem uma boa formação, que você tem boas pessoas te orientando, acho que isso já é um grande passo.”
Dia a dia de quem vive a pediatria
“Minha rotina é bem intensa, a gente começa lá por oito da manhã. Tenho os alunos da PUCPR comigo também. Então, muitas vezes, me divido entre passar a visita e atender os alunos. Assim, passo a visita no Hospital inteiro, atendo os alunos, discuto os casos e as dietas dos pacientes com os residentes. Então, acho que esse serviço vai acabar meio-dia ou até mais que isso. Depois, faço ambulatório para atender os pacientes com paralisia cerebral, fibrose cística e falência intestinal. Se tiver espaço na minha agenda, passo o dia inteiro aqui, porque a demanda realmente é bem grande.”
Quando a ciência muda destinos
“Talvez, trazendo uma memória mais recente, tem as crianças da falência intestinal, que é outro grande desafio. Quando eu era residente, um paciente desses morria. Eu não tinha o que fazer por eles. Então, o cirurgião abria a barriga, tirava grande parte do intestino e já avisava: ‘Não vai viver.’ Hoje, a gente vê um mundo completamente diferente. Com o passar do tempo e a melhoria das questões científicas mesmo, hoje são pacientes viáveis. Existe a possibilidade de transplante de intestino? Sim. Do transplante multivisceral, sim. Mas, com uma boa reabilitação, parte desses pacientes vai conseguir ser reabilitada sem necessidade de transplante. Então, isso é uma outra grande vitória. E aí, nessa história toda da reabilitação, tem vários, né? Até já foi tema aqui. Tem o Nicolas, tem o Paulinho, Miguel… Tem uma lista de pacientes que eu posso citar.”
Crianças, famílias e vínculos que ficam
“A minha primeira paciente de intestino curto hoje é uma moça. Foi muito interessante, porque foi logo quando voltei de São Paulo. De repente, apareceu uma criança que tinha 30 centímetros de intestino. Era a loirinha mais linda do mundo que já vi na minha vida. Uma família simples, mas muito cuidadosa, sabe? A gente foi cuidando da criança do jeito que tinha na literatura, ou com alguma orientação que tinha conseguido. Hoje, a menina é uma moça. Fibrose cística, por exemplo, é outro amor meu. Também é muito bonito ver que são pacientes que iam a óbito muito precocemente e que, hoje, a história mudou. Como diz até uma paciente: ‘O sonho das meninas antigamente era ser mães. Hoje, pode ser que elas consigam ser avós.’ Isso é muito lindo, né? Por conta da ciência. Um outro amor meu são as crianças com paralisia cerebral. Esse é o tipo de paciente que você não vai transformar, no sentido de tirar essa condição de deficiência motora e fazer dele uma criança sem essa limitação. Mas você dá qualidade de vida.”
“O Hospital Pequeno Príncipe é a minha segunda casa. Eu me formei aqui, saí para me especializar e poder voltar para cá. As vitórias do Hospital são as minhas vitórias também.”
Legado que se multiplica
“O Hospital Pequeno Príncipe é a minha segunda casa. Eu me formei aqui, saí para me especializar e poder voltar para cá. As vitórias do Hospital são as minhas vitórias também. Sinto orgulho da equipe, de ter essa possibilidade de trabalhar e fazer o trabalho multidisciplinar acontecer de verdade. Porque não é todo mundo que tem uma equipe, não é todo mundo que consegue trabalhar numa equipe multidisciplinar. E eu acho isso muito legal, sabe? Gosto muito da agitação do Hospital. Eu tenho consultório, mas me realizo e tenho muito mais atividades no Hospital do que lá. Além disso, também sou professora e dou aula de Pediatria. E nessas três, eu vou dizer pra você que o Hospital é o que me dá mais prazer.”
A mesma força para superar desafios
“Faço triatlon [esporte que une natação, ciclismo e corrida em uma única prova contínua]. Minha primeira prova grande, extensa, foi este ano, em março. Fiz o 70.3 do Iron aqui de Curitiba. Se você me perguntasse, depois que eu terminei a prova: ‘Faz outro?’, ia dizer para você: ‘Não.’ Mas agora já penso em fazer outro. Acordo às quatro da manhã para dar conta de tudo. Segunda, quarta e sexta, corro e nado; terça e quinta, faço musculação e pedalo. Daí, no fim de semana, tem os longões, que são as atividades mais longas. Então, quando eu chego, oito, oito e meia aqui no Hospital Pequeno Príncipe, já corri, já nadei. Brinco que, quando chega meio-dia, já vivi um dia. Depois do meio-dia, estou vivendo outro dia. Mas é muito legal, porque sou uma pessoa muito agitada, então a atividade física acaba dando uma acalmada.”
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