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Karyme Juliana David: quando a enfermagem se mistura à vida

Há trajetórias que se tornam inseparáveis do lugar onde acontecem. A da enfermeira Karyme Juliana David é assim. O Hospital Pequeno Príncipe foi seu primeiro emprego, o lugar onde construiu uma carreira marcada pelo aprendizado constante e pela busca incansável por oferecer o melhor cuidado a crianças e adolescentes. Foi também onde encontrou o marido e viu sua filha realizar uma cirurgia cardíaca que salvaria sua vida. Na instituição, ela colecionou encontros que jamais esqueceu — de famílias vivendo despedidas a pacientes que, anos depois, voltaram para abraçá-la já adultos. Ao longo de quase 25 anos, sua trajetória é escrita por essas experiências, que transformaram a enfermagem em muito mais do que uma profissão, mas uma forma de viver.
Escolha pela enfermagem
“Acho que esse cuidado com o próximo, esse amor que a gente tem, é o que acaba levando muita gente para a enfermagem. As respostas costumam parecer meio clichês, meio padrão, como ‘amor ao cuidado’, mas, na verdade, é exatamente isso. Não foi algo que existiu desde sempre, mas sempre gostei de cuidar. Cuidava muito dos bichinhos em casa e, depois, descobri que também gostava de cuidar de pessoas. Quando a gente é criança, pensa em um monte de profissões: veterinária, médica… e, de repente, pediatria. Antes de entrar na enfermagem, fiz um curso técnico para ter certeza de que era isso mesmo que queria. Gostei muito da experiência e confirmei que esse era o caminho.”
O encontro com o Pequeno Príncipe
“Quando fui procurar trabalho, o primeiro lugar onde prestei prova foi o Pequeno Príncipe. Pensei: ‘Se não conseguir aqui, aí vou para outras áreas. Mas, se depender de mim, eu quero pediatria.’ Entrei no Hospital Pequeno Príncipe em 2002 como técnica de enfermagem. Na época, comecei no Posto 400, que ficava no quarto andar. Era uma unidade de clínica médica e cirúrgica que atendia pacientes de convênios. Fiquei nesse setor durante todo o período da faculdade de Enfermagem. Foi uma fase de muito aprendizado. Sempre fui muito curiosa, então estava o tempo todo buscando aprender mais. Ia atrás dos enfermeiros, fazia perguntas e aproveitava todas as oportunidades.”
Aprendizado constante
“Na época, tinha uma enfermeira muito experiente. Ela participava da comissão de cateteres e feridas, e eu vivia por perto, acompanhando tudo o que podia para aprender. Como eu demonstrava interesse, ela sempre lembrava de mim quando surgia alguma oportunidade de capacitação. Fiz vários cursos na área de tratamento de feridas e, por ela também atuar com cateteres, acabei me aprofundando nesse tema e me apaixonando pela área. Depois fiz especialização em cateter PICC para poder atuar com esse procedimento nas crianças. Mais tarde, assumi cada vez mais a área de cateter PICC e os cuidados com lesões de pele, participando da Comissão de Pele.”
Início dos desafios
“Assim que me formei, participei do processo seletivo, fiz prova, entrevista e consegui uma vaga como enfermeira. Na verdade, comecei como ‘foguista’ das UTIs, cobrindo as escalas das unidades de terapia intensiva. Passava pela UTI Geral, UTI da Cardiologia e UTI Cirúrgica. E, quando não havia cobertura nas UTIs, eu atendia também as emergências SUS e Convênios. Era um único enfermeiro para as duas emergências, então a gente precisava estar sempre fazendo essa ponte entre os setores. Foi uma experiência muito rica. Tinha acabado de me formar e já vivia a rotina de emergência e terapia intensiva. Aprendi muito.”
Um ato que salva vidas
“Depois, fui apresentada à Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplante (CIHDOTT). Nela, acompanhamos os pacientes que evoluem para morte encefálica, fazemos a ponte com a Central de Transplantes e conduzimos as entrevistas com as famílias para a doação de órgãos. Imagino que seja um dos momentos mais delicados do nosso trabalho, porque para a família é um dos piores cenários possíveis: a perda de um filho. Porém, vivenciei uma história muito marcante. Um paciente evoluiu para morte encefálica, conversamos com a família, e a mãe autorizou a doação. O coração dele era viável para transplante. Assim, a mãe pediu para ficar até o último momento com o filho, até a saída para o centro cirúrgico. Fui informada de que o transplante tinha sido um sucesso e que o receptor estava muito bem, dentro do esperado. Depois disso, fizemos uma videochamada com a mãe, foi um momento muito forte, porque mostra como, mesmo em meio a uma dor imensa, é possível transformar aquilo em vida para outras crianças.”
Cuidado para além da assistência
“Tempos depois, surgiu uma vaga fixa na UTI da Cardiologia, onde passei a atuar de forma definitiva. Lá, a gente tinha muitos pacientes com cardiopatias congênitas graves — e, infelizmente, nem sempre o desfecho é positivo. Mas tinha uma situação muito marcante para mim, que eu gostava muito de fazer: quando o paciente estava gravíssimo, a gente preparava tudo para que a mãe pudesse segurar o filho no colo. Às vezes, era o único momento na vida em que ela teria essa oportunidade, de segurar o filho vivo. Então, a gente organizava tudo com a equipe, ajustava ventilador, monitorização, todo o cuidado necessário, e deixava aquele momento acontecer com segurança. Era muito emocionante ver aquela mãe segurando o bebê.”
Vida profissional e pessoal entrelaçadas
“Em 2008, conheci meu marido aqui no Hospital. Ele atuava na área administrativa, no Controle Patrimonial. Tenho três filhos: a Caroline, o Murilo e a Isadora, meus amores. A Isadora nasceu com cardiopatia, e só descobrimos quando ela nasceu, com 10 dias de vida. Saímos do consultório no fim da tarde e, por volta das 7h da manhã do dia seguinte, ela já foi encaixada no mapa cirúrgico de emergência no Hospital Pequeno Príncipe. Ela precisou fazer uma cirurgia de correção da coarctação da aorta. Foi um momento muito difícil. Mas, graças a Deus, a cirurgia foi um sucesso. Hoje, ela está bem, já tem 10 anos, faz ginástica artística. Ela faz acompanhamento ambulatorial, de rotina, para monitoramento da cardiopatia, mas até agora não precisou de nenhuma outra cirurgia. Uma das coisas que a gente nunca quer na vida é ser paciente. Mas, naquele momento, eu fui extremamente acolhida. Não é só sobre medicação, aliviar a dor, fazer um diagnóstico ou uma correção cirúrgica. Envolve tudo o que está ao redor disso. E ali entendi muito sobre empatia.”
Amor às crianças
“Sou apaixonada por criança, isso já dá para perceber, ainda mais porque tenho três filhos… Quem é que tem três filhos hoje em dia, né? [risos] A criança é muito verdadeira. A gente percebe quando ela está bem e quando não está. E a gente sabe também que o que fazemos muitas vezes é doloroso, mexe muito com o psicológico. Mas, ao mesmo tempo, é muito gratificante ver aqueles rostinhos indo embora bem, se recuperando. Às vezes, eles voltam, principalmente os pacientes crônicos, e a gente acaba criando vínculo, uma amizade mesmo. Não tem como não se envolver. Hoje, a gente fala muito sobre segurança do paciente e de experiência do familiar. E isso exige que a gente se coloque no lugar do outro: como gostaria de ser atendida? Como gostaria que meu filho fosse cuidado?”
Carinho especial pela nefrologia
“Mais tarde, surgiu um desafio na nefrologia. Foi ali que mergulhei no universo da diálise peritoneal, da hemodiálise e do transplante renal. Gostei tanto da área que fiz uma pós-graduação em Nefrologia. Conseguimos desenvolver diversos projetos para as crianças e também para as equipes, com educação continuada, além de implantar processos de descentralização do atendimento. Lembro da história de um paciente nefrológico, que internava com frequência. A gente sempre conversava com ele, interagia, e o cachorrinho acabou sendo uma grande motivação para ele melhorar e ir logo para casa. Mas, infelizmente, o cachorrinho faleceu. E a gente sabe o quanto o emocional e o psicológico são fundamentais no tratamento. A mãe acabou comprando um cachorrinho muito parecido — são raças que às vezes são bem semelhantes — e colocou o mesmo nome. Quando ele foi para casa, o cachorro estava lá, e ele ficou muito feliz.”
Nova atuação
“Hoje, atuo como supervisora dos ambulatórios e do SADT. Então, acaba sendo um trabalho mais administrativo, mas não consigo me distanciar do paciente. Sempre que tenho oportunidade, estou lá, participando do cuidado, junto com a equipe. O time é grande — ambulatórios e SADT juntos chegam a uma média de cerca de 300 atendimentos por dia. Mesmo assim, continuo próxima da assistência. Teve um dia, por exemplo, que estava passando e vi um homem de braços abertos vindo em minha direção. Quando cheguei mais perto, vi que era um paciente que eu acompanhava na nefrologia quando era criança. Ele já estava com 18 anos, vindo para transição de cuidado. Eu pensei: ‘Meu Deus, como ele cresceu… o tempo passa muito rápido.’ E depois de quase 25 anos aqui… é realmente uma trajetória longa. Acompanhei muitos pacientes desde recém-nascidos e hoje encontro esses mesmos pacientes adultos.”
Ensinamentos compartilhados
“Agora, como supervisora, o que mais gosto de passar para a equipe é que a essência do cuidado não pode se perder. Não é só executar uma técnica. É entender o momento do paciente, ter sensibilidade, carinho e respeito na assistência. Sempre falo: estudem, busquem conhecimento, porque isso ninguém tira da gente. E o que a gente aprende precisa compartilhar. Sinto que a gente vai plantando sementes, e elas vão florescendo em outros lugares. Hoje, o Hospital também tem o Centro de Simulação, que ajuda muito nessa formação. Isso dá mais segurança para o profissional e, principalmente, mais segurança para o paciente.”
Humanização que faz a diferença
“Temos também um trabalho muito interessante com exames, como o eletroencefalograma. Em alguns casos, fazemos teleconsulta com a família antes do exame, para entender rotina, alimentação, comportamento e adaptar o atendimento. Isso ajuda muito na experiência do paciente. Teve um caso de um menino com autismo em que a mãe preparou um livro com fotos de todo o percurso dentro do Hospital. Isso reduziu muito a ansiedade dele e ajudou no exame. Teve também um paciente que veio no dia do aniversário. A equipe organizou tudo com a copa, preparou um bolinho, e entramos para cantar parabéns durante o exame. Foi muito emocionante ver a felicidade dele.”
Conexão com o Pequeno Príncipe
“Ao longo desses quase 25 anos que estou aqui, o Hospital evoluiu de forma extraordinária. Quando precisei fazer a cirurgia da minha filha, foi aqui que escolhi vir, porque sabia da qualidade do atendimento. E hoje recomendo o Pequeno Príncipe para todo mundo, porque realmente é uma referência em pediatria — em cuidado, tecnologia e equipe. Muitos dos procedimentos que fazemos aqui são equivalentes aos melhores centros do mundo. O Pequeno Príncipe é a minha vida. Foi meu primeiro emprego, foi onde conheci meu marido, onde minha filha passou por cirurgia… enfim, é um lugar que faz parte de tudo da minha história. Aqui, tive a oportunidade de crescer, me desenvolver, fazer cursos, buscar conhecimentos fora também para trazer e agregar dentro do Hospital. Então, para mim, aqui é como uma segunda casa. A minha história e o Pequeno Príncipe se misturam completamente.”