Gabriela Caus Fernandes Luiz Canali: vocação se tornou missão

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Gabriela Caus Fernandes Luiz Canali: vocação que nasceu do cuidado e se tornou missão

“Na pediatria, especialmente na oncologia pediátrica, o vínculo é inevitável. Você participa da vida das famílias, chora e ri junto com elas. É um envolvimento de corpo e alma. A tecnologia não substitui isso, que é a essência da medicina.”
19/02/2026
Gabriela Caus Fernandes Luiz Canali
Gabriela Caus Fernandes Luiz Canali teve o primeiro contato com o Hospital Pequeno Príncipe como estagiária voluntária. (Foto: Complexo Pequeno Príncipe/Thiana Perusso)

Do estágio voluntário brincando e interagindo com crianças ainda na faculdade à residência completa no Hospital Pequeno Príncipe, a carreira da oncologista pediátrica Gabriela Caus Fernandes Luiz Canali foi construída com dedicação, empatia e compromisso com o cuidado. Desde muito jovem, ela sempre gostou de crianças e, ao acompanhar de perto o câncer de uma prima, ainda na adolescência, passou a considerar com convicção o sonho de cursar Medicina. Hoje, como médica responsável pelo Serviço de Oncologia e Hematologia, ela transforma vidas não apenas por sua competência técnica, mas pelo carinho e vínculo genuíno que estabelece com cada paciente e sua família. Para a profissional, a instituição é mais do que um local de trabalho: é uma extensão do lar, um espaço de amor, aprendizado e superação, onde cada conquista, cada sorriso e até mesmo cada perda moldam sua vocação e reforçam sua paixão pela pediatria.

O início de um chamado

“Tive uma prima que teve câncer ainda pequenininha. Foi ali que comecei, mesmo sem perceber, a olhar para esse caminho. Eu tinha 14 anos na época. Ela morava no interior e veio para Curitiba para fazer o tratamento, ficando hospedada na casa da minha mãe. Ela alternava entre períodos internada no hospital e dias em casa conosco. Tivemos um contato muito próximo durante todo esse processo. Eu me lembro de irmos até o Hospital Nossa Senhora das Graças, ficávamos no estacionamento esperando notícias. Foi ali que começou a nascer, dentro de mim, a vontade de seguir a medicina — e, mais tarde, a decisão pela oncologia.”

Primeiros passos na oncologia pediátrica

“Entrei na faculdade já pensando em oncologia, sim. Mas, ao longo do curso, em alguns momentos, achei que talvez fosse para a oncologia de adultos. Fiquei nessa dúvida. Fiz estágio por bastante tempo no Hospital Erasto Gaertner, o que reforçou meu interesse na área. Em algum momento — acho que ainda antes do internato — conheci a doutora Ana Paula e soube que existia a possibilidade de fazer um estágio na oncologia pediátrica do Hospital Pequeno Príncipe. Era algo mais voluntário, nós vínhamos para interagir com as crianças, conversar, brincar. Não era voltado diretamente para atendimento médico, mas foi justamente ali que me aproximei de verdade da pediatria. Fiquei cerca de seis meses, se não me engano. Eu me formei em 2008, então isso deve ter sido por volta de 2006. Foi meu primeiro contato mais direto com o Hospital Pequeno Príncipe.”

Formação no Hospital Pequeno Príncipe

“Já sabia que o Hospital Pequeno Príncipe era uma referência. Quando decidi que faria pediatria, pensei: ‘É aqui que eu quero ficar.’ Fiz toda a minha residência aqui. Na época, a formação em pediatria tinha dois anos. Eu me formei em janeiro de 2008 e, em março do mesmo ano, já iniciei a residência. Foram dois anos intensos, de 2008 a 2010. Naquele período, a vaga para a Residência em Oncologia Pediátrica era anual e havia apenas uma vaga por residente. No ano em que eu terminaria a pediatria, inicialmente não existia vaga disponível para oncologia. Mas tudo se alinhou. A doutora Flora conseguiu abrir uma nova vaga, e eu pude dar continuidade à minha formação. Assim, fiz mais dois anos de residência em oncologia pediátrica, de 2010 a 2012. Em 2012, após concluir a especialização, permaneci no serviço, onde estou até hoje.”

Conexão com as crianças

“Sempre gostei muito de crianças. Para mim, trabalhar com pediatria sempre foi algo muito natural. É difícil até explicar, porque nunca foi uma escolha totalmente racional, foi algo que fez sentido no coração. Durante a minha formação, trabalhei como babá. Antes disso, já tinha tido contato com esse universo quando fiz intercâmbio nos Estados Unidos. Lá, é muito comum trabalhar como babysitter, e essa experiência reforçou ainda mais minha conexão com o cuidado infantil. Quando voltei ao Brasil, inclusive, cheguei a conseguir uma bolsa para cursar faculdade nos Estados Unidos. A faculdade começaria em janeiro, e eu tinha voltado em julho. Pensei: ‘O que vou fazer nesse meio-tempo?’ Comecei novamente a trabalhar como babá. No fim, decidi permanecer no Brasil, fiz cursinho e ingressei na Medicina aqui. Durante toda a faculdade, continuei trabalhando como babá para ajudar meus pais a custear os estudos. Ou seja, meu vínculo com crianças sempre esteve presente. Por isso, olhando para trás, até acho curioso ter cogitado a oncologia clínica [para adultos], porque meu coração já tinha um pé na pediatria desde muito cedo.”

Suporte completo

“Uma das coisas mais marcantes ao longo dos anos foi acompanhar o crescimento do Hospital. O que mais me chama atenção é o amor que cada profissional tem pela instituição. Não é só carinho pelas crianças, mas um verdadeiro amor pelo Hospital Pequeno Príncipe. É uma paixão que você percebe nos olhos de cada pessoa que trabalha aqui. Outro ponto importante é atuar em um Hospital com suporte completo. Fazer oncologia pediátrica aqui é muito especial justamente porque temos todas as especialidades disponíveis. Não estamos isolados, sabemos que qualquer necessidade do paciente pode ser atendida dentro da própria instituição. Isso motiva muito o trabalho diário e dá segurança para oferecer o melhor cuidado possível para cada criança.”

Histórias que marcam

“Antes de ontem mesmo aconteceu algo muito especial. Estava na salinha prescrevendo, quando ouvi: ‘A doutora Gabriela e a doutora Ana Paula estão por aí?’ Fiquei animada. Um paciente disse: ‘Só quero dar um abraço nela. Diga que é o Vinícius, aquele paciente que chama ela de doutora lindinha.’ Ele tem 18 anos agora, e fui responsável pelo seu tratamento há cerca de 15 anos. Foi um abraço tão gostoso de receber, um momento lindo. Uma história que me marcou profundamente foi a do Gael, que muitos conhecem, ‘o Principezinho’. Ele passou por momentos muito críticos durante a quimioterapia, e houve uma fase em que parecia que poderíamos perdê-lo. Mas conseguimos discutir o caso internacionalmente, ele passou por uma cirurgia mais complexa — e, de repente, deu tudo certo. Hoje, ele está superbem. Esse episódio me marcou demais.”

Motivação e resiliência

“Às vezes, eu penso: ‘Como dou conta disso?’ Mas aos poucos fui entendendo. Uma frase que ouvi uma vez do doutor Eurípides sempre me marcou: ‘Hoje, você perdeu o Joãozinho, mas vai ter muitas Mariazinhas, Felipinhas… muitos outros para cuidar.’ Quando acontece algo difícil, como a perda de um paciente, penso nisso: talvez tenhamos perdido um, mas ainda há muitos outros que podemos curar. Isso me motiva todos os dias. Confesso que, por muitos anos, não fiz terapia. Comecei há pouco tempo, e isso ajuda bastante. Mesmo antes, a motivação sempre vinha do mesmo lugar: do compromisso com os outros pacientes que ainda estão conosco. Sei que vou perder alguns, mas vou conseguir ajudar muitos outros. E, na pediatria, isso é ainda mais forte, pois a taxa de sobrevida é muito maior na infância.”

Grandes referências

“O doutor Eurípides e a doutora Flora são minhas grandes referências dentro da oncologia. Tudo que eles fizeram sempre foi com muito amor, antes de qualquer outra coisa. Aprendi muito com eles e devo muito do que conquistei aqui graças aos ensinamentos deles. O que mais me marcou foi perceber que, antes de tudo, o trabalho na oncologia deve ser feito com amor. Esse é um legado que quero perpetuar, especialmente para os residentes que estão chegando. E dá para sentir isso em toda a equipe do serviço. Desde os enfermeiros e técnicos até os médicos, todos trabalham com amor, cuidado e respeito pelos pacientes.”

Cuidado que permanece

“O que mudou, ao longo do tempo, foi principalmente a parte tecnológica e assistencial. Conseguimos avançar cada vez mais na cura, oferecendo recursos que antes não eram possíveis. Isso é algo muito característico do Hospital Pequeno Príncipe. Lembro que, no início da minha carreira, pensei em me mudar para o Rio de Janeiro, onde meu marido já morava. Mas sabia que não conseguiria tratar meus pacientes da mesma forma que aqui. No Pequeno Príncipe, conseguimos oferecer praticamente tudo que é necessário para um atendimento de excelência, seja para pacientes do SUS, convênios ou particulares. A única diferença é o espaço físico, mas o cuidado, o tratamento e os profissionais são os mesmos.”

“Na pediatria, especialmente na oncologia pediátrica, o vínculo é inevitável. Você participa da vida das famílias, chora e ri junto com elas. É um envolvimento de corpo e alma. A tecnologia não substitui isso, que é a essência da medicina.”

Essência da oncologia pediátrica

“Na pediatria, especialmente na oncologia pediátrica, o vínculo é inevitável. Você participa da vida das famílias, chora e ri junto com elas. É um envolvimento de corpo e alma. A tecnologia não substitui isso, que é a essência da medicina. Ao mesmo tempo, o que mais gosto da infância é a inocência. A forma como elas se entregam ao cuidado. O olhar que elas têm para nós, até muitas vezes como se realmente fôssemos super-heróis. Existe uma confiança muito genuína. Uma gratidão profunda. Mesmo quando o desfecho não é o que todos desejam, muitas famílias ainda encontram espaço para agradecer.”

O amor pelo Pequeno Príncipe

“Fora do Hospital, sou mãe de duas crianças maravilhosas e esposa de um marido muito companheiro, que entende e apoia esse amor que tenho pelo meu trabalho. É bonito quando compartilhamos isso juntos, porque ele sempre comenta o quanto admira o amor que tenho pela minha profissão. Não consigo imaginar minha vida profissional sem estar aqui. É difícil conceber fazer pediatria em outro lugar. Às vezes, até converso sobre isso em casa, pois ele já teve oportunidades de trabalhar fora, mas sempre penso: ‘Como sair do Pequeno Príncipe? Como fazer pediatria em outro lugar?’ Meu lugar está aqui. É uma extensão do meu lar.”

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