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Dieta cetogênica no controle da epilepsia

Quando se fala em dieta, é comum associar o termo apenas à alimentação saudável. Em algumas condições neurológicas e metabólicas, porém, a alimentação passa a ter papel terapêutico. É o caso da dieta cetogênica, utilizada há décadas no controle de epilepsias de difícil tratamento, especialmente na infância.
Em determinadas doenças, o organismo não consegue utilizar a glicose de forma eficiente, o que pode comprometer o fornecimento de energia ao cérebro, um dos órgãos mais sensíveis a alterações metabólicas. Nesses casos, estratégias nutricionais específicas ajudam a reorganizar o metabolismo e oferecer uma fonte energética alternativa mais estável.
No Hospital Pequeno Príncipe, mais de cem crianças realizam atualmente dietas especiais para o tratamento dos erros inatos do metabolismo. “Entre elas, seis pacientes com tirosinemia, um erro metabólico raro, seguem terapia dietética específica, com acompanhamento multiprofissional contínuo” explica a nutricionista Ana Claudia Santos, da instituição.
O que é a dieta cetogênica?
A dieta cetogênica é um tratamento médico-nutricional com alto teor de gorduras, quantidade controlada de proteínas e restrição de carboidratos. Essa composição induz o organismo à cetose, estado metabólico em que o cérebro passa a utilizar corpos cetônicos, produzidos a partir da gordura, como principal fonte de energia.
Segundo a neurologista Lisandra Coneglian, do Hospital Pequeno Príncipe, essa mudança energética impacta diretamente a atividade cerebral. “Ao substituir a glicose pelos corpos cetônicos como fonte de energia, a dieta modifica a forma como os neurotransmissores atuam, favorecendo maior estabilidade elétrica do cérebro e contribuindo para o controle das crises”, explica.
Por que pode ajudar a controlar as crises epilépticas?
Embora a dieta cetogênica seja utilizada há quase um século, seus mecanismos de ação são complexos e envolvem múltiplos efeitos no metabolismo cerebral. Assim, ela atua em diferentes frentes:
- modulação dos neurotransmissores, com aumento da atividade do gaba (neurotransmissor inibitório) e redução da excitabilidade associada ao glutamato;
- estabilização da atividade elétrica dos neurônios, favorecendo a hiperpolarização da membrana neuronal;
- redução do estresse oxidativo e da inflamação, fatores frequentemente associados à epilepsia;
- melhora da eficiência energética do cérebro, com estímulo à função mitocondrial e maior estabilidade metabólica.
Para quem a dieta cetogênica é indicada?
A dieta cetogênica é indicada principalmente para pacientes com epilepsia farmacorresistente, ou seja, quando as crises não são adequadamente controladas mesmo após o uso correto de dois ou mais medicamentos antiepilépticos. Nessas situações, a dieta pode ser mais eficaz do que a introdução de novos fármacos.
Além disso, existem condições em que a dieta é considerada tratamento de primeira linha, como:
- deficiência do transportador de glicose tipo 1 (glut-1);
- deficiência do complexo piruvato desidrogenase; e
- algumas síndromes epilépticas da infância, como síndrome de Dravet, síndrome de Doose e espasmos epilépticos.
Nesses casos, os corpos cetônicos não apenas ajudam a controlar as crises, mas também funcionam como uma fonte essencial de energia para o cérebro, favorecendo o desenvolvimento neurológico.
Diferentes tipos de dieta cetogênica
Para adaptar o tratamento à idade, rotina e necessidades de cada paciente, existem diferentes variações da dieta cetogênica, por exemplo:
- dieta cetogênica clássica, mais restritiva e com maior produção de cetose.
- dieta cetogênica com triglicerídeos de cadeia média (TCM), que permite maior flexibilidade alimentar.
- dieta de Atkins modificada, menos rígida e mais comum em adolescentes e adultos.
- dieta de baixo índice glicêmico, que busca estabilidade da glicemia com menor restrição.
A escolha do tipo de dieta é sempre individualizada e feita por uma equipe especializada, considerando fatores clínicos, nutricionais e familiares.
Mudanças na rotina e cuidados necessários
Por ser um tratamento médico, a dieta cetogênica exige planejamento, acompanhamento contínuo e treinamento da família. Neste sentido, todos os alimentos precisam ser cuidadosamente calculados, e a criança deve passar por avaliações periódicas para monitorar crescimento, exames laboratoriais e possíveis efeitos adversos.
Durante o tratamento, pode ser necessária a suplementação de vitaminas e minerais, bem como de ajustes finos na dieta para manter a cetose de forma segura. Portanto, quando bem indicada e corretamente acompanhada, a dieta cetogênica é considerada eficaz e capaz de melhorar significativamente a qualidade de vida de crianças com epilepsia de difícil controle.
O Pequeno Príncipe é participante do Pacto Global desde 2019. E a iniciativa presente neste conteúdo contribui para o alcance do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS): Saúde e Bem-Estar (ODS 3).