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Heloisa Arruda Gomm Barreto: farmácia clínica com cuidado e amor

A trajetória de Heloisa Arruda Gomm Barreto no Pequeno Príncipe combina experiências profundamente pessoais e profissionais. Mãe de dois filhos, ela conheceu de perto o acolhimento e a sensibilidade da instituição e descobriu que sua bisavó foi responsável pela doação do terreno onde o Hospital foi construído. Autodidata, construiu sua carreira em farmácia clínica estudando continuamente, participando de congressos e especializações para atuar em hospitais, área que não fazia parte da grade curricular na época. Sua trajetória é, assim, uma extensão do cuidado e da dedicação que sempre recebeu, reforçando seu compromisso com crianças e famílias e com o trabalho multidisciplinar.
A escolha por farmácia
“Sou de Curitiba, nasci aqui mesmo. Quando chegou a época do vestibular, não sabia muito bem o que queria fazer, mas tinha vontade de seguir algo na área da saúde. Acabei escolhendo farmácia, sem ter certeza, como acontece com muita gente nessa fase. Estudei na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Foi uma escolha com a qual realmente me identifiquei. Sempre gostei do que faço, me dediquei bastante e sinto que fiz a escolha certa. Durante a faculdade, fui me interessando bastante pela área de pesquisa. Sempre participei de iniciação científica e gostava muito dessa linha, de desenvolver projetos, estudar e aprofundar o conhecimento.”
Autodidata
“Na época, o curso era dividido em três anos de farmácia, um de bioquímica/análises clínicas e um de indústria — e optei por fazer os cinco anos completos. Na minha formação, ainda não existia a farmácia clínica no currículo. E é justamente nessa área que eu atuo hoje, o que mostra como os caminhos acabam se construindo ao longo do tempo. E depois, quando eu me formei, tinha um processo seletivo para trabalhar na farmácia hospitalar. Só que a gente não tinha farmácia hospitalar no currículo ainda. E eu falo que eu fui autodidata, pois tive que começar a estudar essa área, participei dos congressos, me especializei. Todas as dúvidas que as pessoas me perguntavam, eu anotava. Trabalhava só de manhã e ia para a biblioteca da UFPR e estudava tudo aquilo que estava lá. E com isso eu fui aprendendo.”
Maternidade
“O Pequeno Príncipe eu conhecia, porque tenho dois filhos e o meu primeiro filho nasceu com cardiopatia congênita. Acho que se começasse a trabalhar naquela época, não ia dar conta. Não é uma cardiopatia complexa, mas teve um tempo com repercussão, acompanhamento, internamento, então… Ele nasceu e internou 13 dias, pois teve uma pneumonia. Tive alta da maternidade, fui primeiro para o cardiopediatra antes de ir no pediatra, sabe? Fiz todo o acompanhamento durante toda a vida dele. No começo, fazia os ecocárdios aqui, mas depois no consultório com o cardiologista. Hoje ele tem 29 anos!”
Novos desafios
“Sempre gostei dessa área de trabalhar com pacientes, à beira-leito, mas não tive essa formação inicialmente. Até que surgiu a oportunidade de fazer um mestrado em farmacologia. Quando eu já estava atuando com farmácia clínica, recebi um convite do Hospital Pequeno Príncipe. Foi mais um desafio, porque eu nunca havia trabalhado com crianças. Trabalhar com pediatria é um mundo totalmente diferente. Eu precisava conhecer mais sobre essa área, então comprei livros, comecei a estudar, participei de congressos e fiz diversos cursos.”
Trabalho minucioso
“No Hospital Pequeno Príncipe, havia uma atuação em farmácia clínica mais voltada ao uso de antibióticos, mas não dentro da terapia intensiva. E a proposta era justamente ampliar essa atuação, fazendo a ponte entre as unidades e a farmácia. O papel do farmacêutico clínico é promover o uso racional de todos os medicamentos. Então pensei: é um hospital grande, por onde começar? O que priorizar? A decisão foi iniciar pela UTI da Cardiologia, por ser uma unidade de alta complexidade, especializada, com grande consumo de medicamentos e pacientes pediátricos em estado grave. E foi muito desafiador, porque, além de ser pediatria, ainda envolve uma subespecialidade bastante complexa.”
Farmácia clínica
“Meu trabalho na farmácia clínica envolve participar das visitas com a equipe multiprofissional. Durante essas visitas, avalio todas as prescrições: verifico se as doses estão corretas para cada paciente, analiso os exames, vejo se há necessidade de algum medicamento, se existe alguma interação que possa ser evitada ou substituída e avalio a compatibilidade das infusões. Fui a primeira farmacêutica clínica nesse modelo, e hoje já temos farmacêuticos em todas as UTIs e também no TMO. Atualmente, cada profissional fica responsável por uma unidade crítica. Nas outras unidades, também seria importante ter farmacêutico clínico, mas isso exigiria um quadro de profissionais bem maior.”
Espontaneidade das crianças
“Gosto muito de trabalhar com crianças, porque elas são muito espontâneas. Dá para perceber facilmente quando estão bem ou não, só pelo olhar, pela expressão. Quando a criança está melhor, ela abre um sorriso… É muito gostoso trabalhar assim. Mesmo sendo um ambiente hospitalar, a presença das crianças acaba trazendo um pouco mais de leveza e alegria. Dentro da farmácia, muitas vezes o trabalho fica mais restrito ao ambiente interno, sem tanto contato com o paciente. Já na farmácia clínica, existe esse contato, embora, na UTI, ele seja mais indireto. A gente atua muito junto à equipe multiprofissional, nem tanto diretamente com a criança, até porque muitos pacientes estão em pós-operatório ou intubados. Ainda assim, temos algum contato e, em algumas situações, também interagimos com a família.”
Segurança em primeiro lugar
“Lembro que no mesmo dia em que cheguei à UTI, a doutora Andrea me levou até um dos pacientes e explicou a situação: havia uma criança que precisava receber enoxaparina para ter alta. A dificuldade era que a criança pesava 3kg, a dose histórica seria 3mg, mas a farmácia só fornecia seringa com 20mg em 0,2ml. E, por se tratar de um anticoagulante de alta vigilância, era um problema sério — como prescrever e aplicar com segurança? Então, comecei a estudar. Pesquisei como outros hospitais, como um do Canadá, resolveram essa questão diluindo a dose em soro fisiológico. Propusemos essa solução à equipe, levamos para a dose unitária e conseguimos implementar. Claro que não aconteceu do dia para a noite, mas foi assim que vencemos esse desafio: estudando a estabilidade, a forma de prescrever, como aplicar e organizar tudo no sistema.”
Conquistas importantes
“Uma experiência que me marcou muito foi com pacientes transplantados que precisavam de profilaxia contra o citomegalovírus (CMV). O medicamento normalmente é injetável e muito caro, sem cobertura pelo SUS na época. Quando o paciente já estava internado, iniciamos o processo judicial imediatamente, para que ele tivesse o medicamento ao receber alta e evitasse risco de rejeição do enxerto. Em um caso, o doutor Donizetti me disse que eu precisaria conseguir o medicamento para um paciente ambulatorial. Elaborei uma carta com revisão bibliográfica e justificativas, que foi assinada por ele e enviada. Pouco tempo depois, o medicamento foi disponibilizado. A partir dessa conquista, conseguimos fornecer a profilaxia para todos os pacientes de transplante cardíaco e, posteriormente, hepático, mantendo a iniciativa por quatro a cinco anos.”
Memórias que marcam
“Tem uma história que me marcou e mostra como as pessoas aqui são humanas. Um dia, eu estava de plantão, e uma técnica de enfermagem veio à farmácia pegar um medicamento. De alguma forma, ela me reconheceu e perguntou pelo meu filho. Ela disse que tinha cuidado dele quando ele esteve internado com pneumonia. Ela comentou algo como: ‘Nossa, eu me lembro de você e do Pedro!’ Fiquei surpresa, porque aquilo tinha acontecido uma única vez, há muitos anos, e ainda assim ela lembrava. Perguntei como conseguia se lembrar de nós depois de tanto tempo, e ela explicou: lembrava de algum movimento ou necessidade específica dele — ele precisou de fototerapia, e minha família ajudou a conseguir recursos para isso, até doando dinheiro para comprar o equipamento, beneficiando também outras crianças. Ela falou que gostava muito da nossa família, que achava a gente muito legal e que cuidava do Pedro com carinho.”
Raízes e gratidão
“Quando comecei a trabalhar aqui, havia muitas histórias da família que eu não conhecia. Minha bisavó era muito ativa, participava de várias ações sociais, fazia parte da Cruz Vermelha. Ela casou com um inglês mais velho e recebeu muitos bens, o que lhe permitiu continuar ajudando a comunidade. Uma das coisas foi a doação do terreno onde o Pequeno Príncipe foi construído. Isso me enche de orgulho, porque vejo como essas conexões foram se formando ao longo do tempo. Tenho muito agradecimento ao Pequeno Príncipe, que salvou a vida dos meus filhos mais de uma vez. Gosto muito de trabalhar aqui, pois me sinto acolhida e em casa. Sempre surgem novos desafios, e temos apoio para desenvolver projetos e enfrentar essas novidades. Acredito que aqui no Pequeno Príncipe temos excelentes profissionais, com quem conseguimos trabalhar de forma integrada.”