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Grazieli Cristina Boeira da Fonseca: a ousadia de cuidar

Grazieli Cristina Boeira da Fonseca transformou o amor pelo cuidado em vocação ao ingressar no Hospital Pequeno Príncipe, ainda como estagiária de psicologia, em 2002. Essa semente foi cultivada durante sua trajetória e floresceu na causa infantojuvenil, campo em que colheu histórias, conquistas e amizades. Hoje, como coordenadora do Serviço de Voluntariado, segue semeando sonhos de famílias e pacientes, sustentada por raízes firmes: a coragem de quem não teme desafios e as inspirações que, como ela, ousaram cuidar.
A semente da admiração
“Quando decidi começar a trabalhar na minha área, parece que foi Deus! A minha vizinha apareceu no portão e falou: ‘Me dá o seu currículo? Minha tia trabalha numa empresa de RH, e estão precisando de estagiária no Pequeno Príncipe.’ Então, entrei no Hospital, em dezembro de 2002, como estagiária de psicologia, estava no final do segundo ano da faculdade na Universidade Positivo (UP). Meu ingresso na psicologia se deu por conta de uma admiração que eu tinha por uma professora no magistério. Ela tinha um jeito diferente de falar com os adolescentes, de dar aula, de compreender os alunos. Admirava muito aquilo e queria ser como ela.”
Referências ao longo da trajetória
“Ao entrar no Hospital, também passei a admirar muitas pessoas daqui. Naquela época, a Dona Ety [Ety Gonçalves Forte] visitava muito o Serviço de Voluntariado, participava das comemorações e contava histórias que reforçam aquilo que a gente tem vontade. Não é impossível eu fazer isso para as crianças, porque existiu a Dona Ety, que também fez. Ela foi além do seu tempo e conquistou muito para o Hospital. A Rita, minha gerente, que também tem a Dona Ety como referência, sempre me ajudou e deu essa liberdade.”
O cultivo de uma paixão e vocação
“Descobri no Pequeno Príncipe essa paixão pelo cuidado com os adolescentes. Então, em 2009, fui em busca de novos desafios. Passei em concurso público, fui a psicóloga de um CRAS no município de Campo Largo, trabalhei com adolescentes durante muito tempo em comunidades, coordenei um programa de jovens aprendizes e dei aula em outros projetos para adolescentes, sempre na questão profissional. Nesse meio do caminho, recebi um convite para retornar ao Hospital, em maio de 2018, e estou aqui até hoje. De psicóloga fui promovida para coordenadora do setor, mas agora já são 14 anos no total que tenho de Pequeno Príncipe.”
Crescimento e conquistas junto ao Hospital
“Sonho muito! Temos que mover muita coisa, entendo os limites, mas isso é uma coisa que gosto muito do Hospital: a possibilidade de sonhar e realizar. Dentro do nosso mundo, do que é possível para uma instituição que é uma ONG, tenho uma autonomia muito grande de realizar sonhos com os pacientes. São muitos voluntários que sonham junto com a gente. Às vezes, não chega uma doação, e falamos aos voluntários: ‘Quem que topa?’ Então, lembramos de alguns parceiros e conseguimos realizar.”
O amor em comum
“O Hospital nasceu de mãos de voluntárias, e nós pudemos dar continuidade a essa missão. Nesse sentido, o voluntariado se torna uma referência. Estou no meio de várias pessoas que compartilham desse compromisso com o outro. Soma um pouquinho de cada um, e ficamos mais fortes. E quando falamos dessa força do voluntariado, precisamos citar a pandemia — porque ficamos sem eles, não tinha mais aventais amarelos durante dois anos. Mas tivemos uma mobilização bem no início, ali em março, quando precisávamos de máscaras: montamos um grupo com 65 costureiras, mulheres que eu nunca vi, voluntárias, que conversei apenas pelo WhatsApp. Durante três meses, o motorista levava o material, elas costuravam as máscaras e os pijamas cirúrgicos, e íamos buscar. Foi uma mobilização e uma força transformadora das pessoas.”
Um lugar de cuidado
“Quando penso nesse meu lugar, penso nesse amor pela causa dos pacientes, sabe? E quando eu falo isso, sinto que tenho que contar um pouco da minha história. Perdi minha mãe com 11 anos. E meu pai depois, mais tarde, com 20. E por esses processos de perda, conheço o lado da família que está no Hospital e, muitas vezes, do que ela precisa. A equipe da assistência é a mais importante, mas existem também outras demandas, que são emocionais e de apoio. Os setores de humanização vêm desse lugar, do olhar, de perceber outras necessidades daquele momento — e, então, dividimos o cuidado. Dividimos o cuidado para ficar com a criança enquanto a mãe almoça, toma um banho, resolve alguma questão jurídica… São coisas que, de alguma forma, também passei em outros momentos. Esse lugar me permite cuidar, talvez, de uma parte minha que não pôde ser cuidada. E eu faço isso com muito amor.”
“Quando você está com uma criança, não consegue mascarar nada. Elas têm uma leitura muito boa — você é o que você é. Então, quando estou na presença dela, eu não tenho máscaras, ela sabe quem está ali.”
A essência de ser
“Os pacientes observam muito. Uma mãe me disse: ‘Ele está perguntando por que você não está usando batom hoje, porque diz que adorava o seu batom.’ Os pacientes percebem. Quando você está com uma criança, não consegue mascarar nada. Elas têm uma leitura muito boa — você é o que você é. Então, quando estou na presença dela, eu não tenho máscaras, ela sabe quem está ali.”
Brincar como forma de cuidar
“Recentemente, passei por um menino — bem pequenininho — que estava chorando, em jejum por muito tempo. ‘Quer dar uma volta comigo no Bibinha?’, perguntei e dei a mão para ele. Então, enquanto caminhávamos, ele falou para mim: ‘Você veio andar comigo para eu me acalmar, né?’ Perguntou se eu estava nervosa, falei que estava. ‘Mas por quê? Eu estou nervoso porque estou em jejum, e você?’. Falei que tinha ficado nervosa pelo mesmo motivo. Nos acalmamos e ficamos brincando embaixo da escada. Esse dia me marcou muito, pois ele me colocou num lugar de igual. Só dei a mão para ele, e ele não precisava de mais nada meu. O brincar traz isso. E aqui no Hospital é uma forma de diminuir os impactos da hospitalização. Brincar vai dar essa autonomia para eles e trazer de novo a identidade de ser criança. Então, muito mais do que entregar um brinquedo, é muito importante brincar junto.”
Uma escolha diária
“O Hospital é um mundo maior que a instituição. Tenho conhecidos que se tornaram voluntários, voluntários que se tornaram amigos. Minha vida também é o Hospital, e por escolha. Acho que isso é o mais importante, faço todas essas coisas pela instituição, pela causa, e é uma escolha minha.”
O nome carregado no peito
“O carnaval, por exemplo, foi um momento emocionante: ver o lugar que você trabalha sendo homenageado. Teve uma equipe grande que participou do desfile, e as crianças puderam colocar as mãozinhas nos tecidos do carro alegórico em uma oficina com os voluntários. Então, a essência do Pequeno Príncipe estava lá. E não era só uma coroa no meio da multidão — eram muitas pessoas usando as coroas do Hospital, cantando a música e dançando o enredo. E o carinho da escola também, porque eles reconhecem a instituição como parte do seu trabalho. Então, quando eu ia para os ensaios, as pessoas me procuravam e falavam que queriam ser voluntárias. Eu carrego, sim, o Hospital comigo. Mesmo inconsciente, sabe? Tem que ser saudável, claro, tenho uma vida que vai além do Hospital, mas tem muita coisa que cresce e cultivo aqui e lá fora também.”
Apoio mútuo
“Sou muito próxima da equipe do CAC [Central de Atendimento ao Colaborador]. Eles têm um grupo de corrida, e comecei a participar. E não víamos a hora de chegar a nossa do Hospital. Porque correr para o nosso Hospital, pela nossa causa, tem outro significado. Duas semanas antes da corrida, uma pessoa que corre há mais tempo do grupo falou que nos acompanharia no trajeto, porque era a primeira vez de todas nós e estávamos em dúvidas se conseguiríamos. Foi muito bonito ver, sabe? Essas meninas me incentivaram, me motivaram, e acho que o grupo todo, naquele momento, viu que era possível.
Desafios e aventuras
“Gosto muito de desafios. Quando falo dessa possibilidade de fazer coisas diferentes no Hospital, é porque lá fora também sou assim. Todo ano, elejo novas coisas que quero fazer. Gosto de morros, subir montanhas, e teve um ano que decidi me dedicar a isso. Em três meses, subi dez morros. No ano seguinte, eu me dediquei para a natação. Eu só nadei e nadei. E tenho vontade de muitas coisas. Já pulei de paraquedas, aprendi escalada em rocha e indoor. Gosto de aventuras. Do ano passado para cá, decidi aprender a dançar. Hoje, eu danço gafieira, estou aprendendo zouk e dança de salão também. Forró, bolero, mas a minha grande paixão é o samba e a gafieira.”
Raízes
“Não acho que precise ser isso ou aquilo, isso limita. Sou psicóloga clínica, então também tenho um tempo dentro do atendimento clínico como autônoma. Gosto muito de ler, tanto coisas da minha área quanto ligada à espiritualidade. Acredito muito numa força que me mantém, que pôde me dar força diante de tantas dificuldades da vida, principalmente pela perda dos meus pais. Falo muito do trabalho, mas minha família sempre vem em primeiro lugar. Tenho uma família incrível, meus irmãos, meus sobrinhos, eles são incríveis. São o meu pilar e estão junto comigo em tudo que eu faço.”